domingo, março 19, 2006

AUTORitário

“Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras, libertando um sentido único”
Roland Barthes, in Morte do Autor

Acabei de ler um livro. Fui lendo aos poucos e fui descodificando por entre palavras, frases, parágrafos, o seu sentido. No fim de o ler, surgiram perguntas pertinentes e cada vez mais perturbadoras: “Será que percebi o livro? Será que recebi a mensagem que o Autor me queria passar?” Na realidade, eu percebi-o; na realidade eu descodifiquei a mensagem e obtive uma percepção, um entendimento. Mas seria esse entendimento desmantelado por mim que o Autor queria que eu interpretasse?
Uma Obra de Arte, seja ela escrita, pintada, tocada ou cantada, é um texto que necessita de ser experiênciado. É nela que o Sujeito se manifesta de uma maneira única e individual mas pensada para o colectivo, para o receptor, para o leitor. Note-se que falei em Sujeito. E o Autor? Ao Autor apenas o encontramos na capa de um livro, numa legenda de um quadro, num manual de música; ele nunca se encontra no texto em questão. E ao não darmos importância ao Autor, vamos olhar para o texto com uma grande abertura e um largo horizonte, vendo nele um Sujeito e não um Autor, um Guia e não um Ditador. Em cada palavra vamo-nos descobrindo, vamos descodificando a nossa mensagem, vamos construindo e fechando, assim, o nosso texto. A capacidade de nos abstrairmos do Autor, torna-nos leitores libertos e capazes de decifrar na subjectividade e na própria polissignificação, um caminho diferente a seguir. Temos escolhas ilimitadas. Somos nós, leitores, os autores dos textos que lemos.
“O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. É através da frase de Barthes que denotamos a importância do Leitor face ao Autor. É sem a imposição de um AUTORitário que podemos nascer e fazer chegar, até nós, a nossa significação. O sentido único de um texto é visto, então, como o trancar das interpretações que possam surgir do Leitor. É o fecho intencional do Autor. Mas a construção de sentido não é unilateral mas plural. Não está no Autor. A escrita é o que faz com que o texto funcione perante o Leitor, acabando por agregá-lo. A Escrita vai assim moldando-se, permitindo que haja sempre coisas novas a descobrir, tornando-se ela mesma protagonista e a verdadeira importância para o Leitor.
No tecido textual vamos desfiando significados, cosendo nelas as vivências e as interpretações do Leitor. Agora entendo o livro que li. Agora percebo o porquê de outras pessoas que o leram o perceberam de diferente forma. Vejo agora, o ridículo da minha professora de Português do décimo ano, corroída pela sociedade e pela própria noção de Autor, na interpretação de um texto subjectivo. Ouço a frase dela: “Está errado. Não era isso que o Autor queria transmitir.” Mas afinal o que seria? Agora entendo porque me libertei. Entendo porque vi na acção que é a Escrita, o Sujeito do Autor, que já lá não está. Nós construímos o texto que o Sujeito nos vai narrando. E já não é do Autor, é nosso... Não somos nós que o fechamos?