sexta-feira, março 25, 2005

Cegueira


A luz... Olho para a luz e vejo. Vejo algo que me torna cego. E é nessa cegueira que tento ver. Que tento ver-te. Imaginar-te. Vejo-te a entrar na minha vida. Vens a caminhar na minha direcção. És bela e rasgas esse teu grande sorriso branco. É nele que encontro a felicidade momentânea, o prazer espontâneo da alma. Entras descalça, por entre o relvado macio que te vai acariciando... Ai, como sinto! Vens a colher flores. Flores de mil cheiros e de mil cores. É nesses cheiros que consigo encontar o perfume dos teus cabelos e é neles que me perco e vou viajando... viajando...! Sinto-me perdido mas encontrado em ti... e é em ti que me volto a perder. É no teu rosto que me vou detendo e fixo-o deslumbrado. Olho-te. Quero-te. Fito-te. Miras-me de longe com o teu olhar sedutor mas timido e pensas em mim. Sei que pensas em mim. Continuas a tua caminhada na tua direcção, nesse pasto verdejante, de um verde quase transparente. Estás cada vez mais próxima. E eu? O meu coração explode de sangue. Estou nervoso... Sorri-o. Riu às gargalhadas roucas e vou chorando, chorando... Estendes-me a mão frágil que espera o toque da minha, que treme por pensar em ti, por quase te sentir. Apertas-me a mão e eu quero-te... Quero-te! Acaricias o meu rosto inexpressivo, que te quer mas não se move, que te ama mas não se quebra. Abraças-me. Sinto a tua respiração cada vez mais ofegante a bater no meu peito. Contigo sinto-me seguro. Sinto-me completo. Porque juntos o silêncio basta... Elevamo-nos do solo a uma altura desnivelada e já não te sinto, sinto-me; já não me sinto, sinto-te... choro! Choras. Estamos felizes. Estou feliz... Desapareces. A luz entra infinitamente na minha retina e a cegueira torna-se claridade. Já não te vejo... mas continuo a sentir-te, a cheirar-te... a amar-te cegamente.

sexta-feira, março 18, 2005

Ferida Aberta


Tenho em mim uma dor! Dor de ferida aberta... Mas quanto mais me dói, mais alegria tenho! Com mais emoção fico! Dor insuportável que vou suportando, com grande calmaria. E a vou retendo, guardada, só para mim. Torna-se em egoísmo desmedido e vai crescendo e crescendo...
Quero controlá-la!! Quero senti-la! Sim, como é bom sentir...! Sentir uma dor que nos foi provocada, que nos foi roubada de um outro sentimento qualquer. Criada no vazio que ficou, no vácuo da alma e nos sonhos traídos pela realidade do Amor. Sorri-o. Permaneço calado e imóvel, sentindo o desassossego de uma ferida que sangra e não estanca. Está inquieta pelo meu sentimento de indiferença... e abre, rasga! Vinga-se de mim! Vinga-se em mim! É o meu ser que luta contra ele próprio, que vai abrindo e fechando este arranhão, provocando a sensação de ardor cada vez mais forte e presente.
Continuo imóvel. Sorri-o mais... Tudo porque o meu vazio foi preenchido por algo... Algo que, de certo modo, nos mantém vivos. Estou preenchido pela dor que escraviza e pela vontade de amar... que encoraja.

segunda-feira, março 14, 2005

Sentimento Pensado



Vivo com a sombra do teu olhar em mim. Uma sombra que aquece a esperança fria do teu retorno... Mas depois se afasta e regela. Tudo se torna desumano.
O inatingível fica no infinito, lá longe. Só contigo o consigo atingir, pensando o quanto estou feliz...! Sim, estou feliz por pensar que, contigo, uma música não é uma música, uma paisagem não é uma paisagem... Porque tudo se torna único e realmente banal. E é na banalidade do ser que encontramos a unidade da alma. Afinal, tudo isto é provocado pela tua sombra. És no meu ser um sentimento inconformado, que narra a existência extinta de ti em mim. É na escuridão clara da tua sombra que te tento sentir, que te tento ver... Serás alguém? Serás alguma coisa? Não sei bem... Nem ninguém saberá. Apenas terei a certeza incerta de estar coberto por ti sem te sentir cada vez mais próximo de mim. Saberei o teu nome? Saberei a tua história? Sei! Tu és o meu imaginário mais profundo que, com o tempo, se torna cruel e real... mas é apenas um pensamento ou, talvez, um sentimento pensado.

segunda-feira, março 07, 2005

Realidade Sonhada

Vejo ao fundo uma luz. Uma luz que escurece o meu ser. Uma luz que nos cega e nos torna incapazes de ver e pensar. É essa cegueira que nos é imposta. Imposta por ninguém e por toda a gente. Somos conduzidos a um ideal, a um grito silencioso, que se alastra como uma doença, e mata...mata.
Vejo ao fundo o mar. Parece calmo. Mostra-se sereno. E é nessa serenidade que somos embalados: Por um cantar místico, que nos adormece e confunde. Parecemos alienados. Sim... não... talvez. Quero pensar, quero ver... mas não consigo. Apenas vejo aquilo que o mar me mostra, uma serenidade que miro mas não sinto.
Vejo ao fundo a Paz, um mundo novo, livre, sem a luz que via, sem o mar que me atormentava. Acordei. Era um sonho... ou, por ventura, uma realidade sonhada.